2020: Da resistência de 2019 para a mobilização das religiões de matriz africana.

Saravá a todas e todos.

O ano de 2019 foi um ano de resistência para a comunidade de terreiros de religiões de matriz africana. Ficou notabilizado com a escalada da violência contra Templos, Dirigentes, Médiuns e Fiéis, que assumiu proporções nunca vistas.

No ano de 2020 temos que dar um salto de qualidade na nossa intervenção, que deve iniciar imediatamente. Já temos atividades agendadas, no dia 21/01 – Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa teremos o evento da Prefeitura Municipal de Curitiba para lançamento da Cartilha com orientações sobre a legalização dos Templos e do filme sobre a intolerância religiosa em nossa cidade. Ambos são conquistas discutidas no Fórum das Religiões de Matriz Africana de Curitiba e Região Metropolitana.

Em fevereiro teremos os desfiles do Bloco de Afoxé 2020 e o das Escolas de Samba, onde as GRES Imperatriz da Liberdade desfilará na passarela do samba de Curitiba com o enredo: “Não quero intolerância na minha fé, eu quero respeito, porque bato no peito e assumo que sou do Axé”!

Mesmo sabendo que existem filhos de santo que desfilam em outras agremiações acredito que não seria acintoso para as suas escolas um esforço para fazer um grande manifesto contra o preconceito e a discriminação no carnaval curitibano.

A nossa participação efetiva e massiva nesses eventos determinará um novo patamar do “Povo de Santo” para o atendimento das nossas reivindicações, por respeito ao nosso sagrado e possibilitará lançar as bases para termos ao menos um candidato com reais chances de se eleger no parlamento municipal em Curitiba.

Para que isso se viabilize temos que participar do planejamento e dos ensaios do Afoxé 2020 e retomar as reuniões do Fórum das Religiões de Matriz Africana de Curitiba e Região Metropolitana com a maior brevidade possível.

No Fórum, e essa é uma opinião pessoal, devemos definir o perfil do candidato que merecerá o nosso voto, que seja praticante das religiões de matriz africana, identificado com as nossas lutas, e que possua o conhecimento necessário para participar num parlamento que é venal e que apresenta várias oportunidades de corrupção.

Além disso, que se comprometa com um mandato compartilhado e coletivo(*), no sentido de estabelecer assessorias para a Umbanda, Candomblé e demais religiões que estejam representadas em nossa cidade.

Que discuta diuturnamente com a assessoria e no Fórum os seus posicionamentos relativos às questões inerentes à cidadania, políticas públicas de igualdade racial e promoção do ser humano, defesa do meio ambiente e dos animais, e quaisquer outras que forem consensuadas no coletivo do mandato. Assim, dando visibilidade e voz aos segmentos invisíveis da sociedade curitibana, étnicos, formada também por ciganos, quilombolas e indígenas; sociais como os catadores de materiais recicláveis; e, religiosos das religiões minoritárias, através da Casa das Religiões Unidas (CREUNI) e da United Religions Initiative – Iniciativa das Religiões Unidas (URI).

Por fim, que apresente viabilidade eleitoral e se comprometa a utilizar a estrutura e os recursos que o parlamento municipal pode oferecer para o reconhecimento pleno e consolidação do respeito às religiões de matriz africana em nossa cidade, por uma Curitiba mais justa, fraterna e igual.

Feliz Ano novo e Axé!

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 (*) Para saber mais sobre o Mandato Coletivo:

” Mandato coletivo quebra barreiras na Assembleia de SP e projeta multiplicação” 

Publicado em FPA Análise da Mídia, edição nº 840 – 07/01/2020.

Quando o clima no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo esquenta, e isso foi recorrente em 2019, a deputada Monica Seixas (PSOL), 33, pensa às vezes em explodir. Mas ela para e respira. “Preciso lembrar que o mandato não é meu. Se, no limite, eu for cassada, não serei a única prejudicada. Tem mais sete comigo”, diz ela, que, perante seu grupo, é mais uma codeputada.

Depois de nove meses na Casa, a jornalista ainda precisa explicar como funciona seu mandato. Mas as principais resistências foram quebradas, na avaliação dela e dos colegas. Monica é quem responde oficialmente como deputada porque era o nome dela que estava na urna na eleição de 2018 e angariou 149.844 votos (a décima maior votação para o Legislativo estadual). Mas a campanha, gestada no movimento Bancada Ativista, consistia em uma candidatura coletiva formada por nove pessoas, que depois virou um mandato compartilhado, algo inédito na Assembleia.

Chamado pelos integrantes de experimentação democrática, o formato não é reconhecido pela Justiça Eleitoral ou pelo regimento da Casa. Por isso, alguém tem que assumir a função de porta-voz. “Eu mesma nunca tinha ouvido falar nisso quando fui chamada para entrar na campanha. Imagine os outros deputados daqui”, diz Chirley Pankará, 45, que é indígena e representa essa causa no mandato. No site da Assembleia, enquanto o campo “área de atuação” registra para a maioria dos deputados algo em torno de 3 a 8 temas, o do mandato coletivo apresenta 18.

Descrito como um catalisador de ativismos, o grupo se preocupa com bandeiras que vão de diversidade sexual a orçamento, de maternidade a ambiente, de direitos animais a segurança pública. Os codeputados foram nomeados como assessores e recebem salário correspondente à função, embora atuem quase como parlamentares. Anne Rammi, 39, que foi eleita com a turma, se afastou em setembro por questões pessoais e se mudou do Brasil.

Para comportar a estrutura diferente, a Casa abriu exceções, dentro do que a legislação permite. O grupo precisou, por exemplo, insistir para que a foto na porta do gabinete 2107 fosse de todos, e não só do rosto de Monica, como é nas demais salas. O veto à entrada dos companheiros no plenário foi resolvido com criatividade. Ali só deputados oficialmente reconhecidos podem pisar e acessar a tribuna. Resolveu-se assim: a titular vai ao microfone e pede que seja exibido no telão do auditório da Assembleia um vídeo gravado com a fala do colega. Isso, explicam os membros, reforça para a Casa e os eleitores o espírito de colaboração do mandato, em que todos os posicionamentos, decisões e votos são definidos em conjunto.

Nas comissões permanentes, a titular é frequentemente acompanhada por um codeputado, que a orienta em tempo real, sentado a seu lado. Pelas regras, no entanto, só ela pode se manifestar. Já nas frentes parlamentares, com normas mais flexíveis, deu para conseguir espaço maior. A ponto de a Frente em Defesa da Cultura ser presidida pelo codeputado Jesus dos Santos, 35. Certo dia, Monica foi parada no corredor por um deputado de outro partido, que lhe pediu: “Ó, avisa o Jesus que eu vou à reunião da frente, tá?”. “Começam a entender que eu sou só a ponta”, diz ela. “É difícil para mim, porque tenho que reprimir opiniões próprias em nome do coletivo. Até as tretas que eu comprei foram quase todas autorizadas”, diz, aos risos. O “quase” ela atribui ao pacifismo de Claudia Visoni, 53, que é codeputada da pauta agroecológica e desencoraja brigas. “Nosso modelo é ameaçador para a política tradicional, que é muito baseada em personalismo”, analisa Claudia. Filiada à Rede, ela é a única dos oito integrantes de fora do PSOL. As diferenças partidárias estão bem resolvidas, segundo os participantes.

Para superar os impasses que surgem no dia a dia, eles desenvolveram uma técnica: quando o problema parece insuperável, pulam para o assunto seguinte. Assunto, afinal, tem de sobra. O grupo se orgulha de estar metido em muito do que é discutido no Legislativo paulista. “Eu me especializei em obstrução”, diz Monica sobre as estratégias de plenário para adiar votações, que vão de abandonar as cadeiras até discursar o máximo de tempo possível. A oposição mais ferrenha é aos projetos do governo João Doria (PSDB), como os de privatizações e o da reforma da Previdência. Na visão do grupo, a intromissão em múltiplos nos debates e a postura aguerrida podem ter contribuído para um desgaste, ao longo dos meses, com o presidente da Assembleia, Cauê Macris (PSDB). A relação, embora respeitosa, já foi mais amigável. Procurado, Cauê se manifestou via nota. Disse que “democraticamente respeita todas vertentes políticas” presentes no local. E que, “em obediência ao regimento interno e até mesmo à lei eleitoral”, considera Monica a representante da Bancada Ativista que possui legitimidade parlamentar.

A julgar pelo número de consultas ao gabinete desde o início do mandato, as casas legislativas terão que se adaptar de vez a esse arranjo. “Grupos da zona sul e da zona leste [da capital] já me falaram que querem se juntar para concorrer em 2020. Todo dia alguém quer saber como é”, conta o codeputado Fernando Ferrari, 41. Brasil afora, legendas como PSOL, PC do B, PDT e DEM têm grupos se organizando com essa intenção. A percepção é endossada pela Bancada Ativista. “Vai estar saturado de candidaturas coletivas”, diz Caio Tendolini, que faz parte do movimento surgido em 2015 e trabalha no gabinete como assistente. Ao mesmo tempo que empolga, a previsão o preocupa. Há um receio de que o modelo seja banalizado ou deturpado, com cálculo puramente eleitoral. ​A própria Bancada prepara candidaturas às Câmaras Municipais, inclusive com a presença de atuais codeputados paulistas. Quer ainda as distribuir por mais legendas além do PSOL.

Em outros estados, os mandatos conjuntos “Muitas” (na Câmara de Belo Horizonte) e “Juntas” (na Assembleia de Pernambuco) também são vistos como inspiração. “A configuração será copiada por partidos da esquerda à direita. O problema são as iniciativas fake, que se apresentam como coletivas, mas não têm senso de coletividade”, afirma Tendolini.

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