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Aos Umbandistas do Estado do Paraná

Por Paulo Tharcicio Motta Vieira*

Se primeiramente os cultos afro-brasileiros representavam a resistência cultural e religiosa dos negros africanos que para aqui vieram escravizados, e posteriormente dos seus descendentes, aos poucos foram cedendo espaço á sociedade branca e cristã, mais poderosa, que acabou resultando em religiões sem cunhos étnicos, raciais, geográficos e de classes sociais, que tinham que competir no mercado religioso, por fiéis, reconhecimento e legitimidade.

Dessa forma, ao romper do século XX, nasceu uma nova religião no Rio de Janeiro, a Umbanda, inspirada nas antigas Macumbas cariocas e na Cabula, na esteira dos escravos recém-libertados que iam para o Rio de Janeiro, então capital federal, em busca de trabalho no cais do porto; influenciada pelo Espiritismo kardecista, que aportava no Brasil, nas cabeças dos filhos de famílias abastadas após o término de seus estudos na França.

E assim, a Umbanda disseminou-se em todo o Brasil, sendo a grande religião brasileira, reproduzindo a formação da nossa sociedade mestiça, mesclando o catolicismo dos brancos, os Orixás dos negros e a espiritualidade e rituais dos indígenas.

Mas, desde a assunção da Umbanda, no plano terreno, ocorrida em 1908, por obra do Pai Zélio Fernandino de Moraes e do Caboclo das Sete Encruzilhadas muita coisa mudou em nosso país, mudanças que foram sentidas também nas religiões, com novas formas de buscar o religare, convivendo com antigas; algumas se mantendo intocáveis, outras se modernizando, acompanhando usos e costumes; ou mesmo assumindo novas roupagens que lhe são impostas por novas lideranças.

No seu início, a nova religião denominou-se Espiritismo de Umbanda, e até hoje ainda muitos Umbandistas se denominam espíritas, além disso, a Umbanda não só conservou o sincretismo católico, como assimilou preces, devoções e valores católicos, se constituindo na mais católica das religiões com matriz africana.

Um fato muito comum, talvez como reação a essa proximidade com o catolicismo é a conversão de Umbandistas ao Candomblé, isso ao invés de fortalecer a sua identidade religiosa umbandista, acaba criando uma confusão tal, que muitos acabam abandonando a Umbanda definitivamente.

A característica marcante da Umbanda é a reunião de pequenos grupos de pessoas, que se unem em torno de um dirigente, mãe ou pai de santo, que embora tenha sido formado por outro (a) mãe ou pai de santo, ao imprimir as suas características pessoais, saberes e personalidade, forma um terreiro diferente daquele que lhe deu origem, autônomo e independente, com pouca – geralmente em festas -, ou nenhuma relação com outros grupos.

Dessa realidade pode-se concluir que não existe uma organização institucional capaz de unificar os terreiros, uma vez que mesmo litúrgica e ritualisticamente, grosso modo, não existem dois terreiros de Umbanda iguais, tornando-se muito difícil o estabelecimento de projetos e estratégias comuns, tanto no aspecto religioso, quanto na relação com a sociedade.

As federações de Umbanda, via de regra agrupam também Ilês do Candomblé, e Templos de outras religiões, dividindo a força representativa, e muitas delas existem única e exclusivamente para o benefício particular dos seus dirigentes, nada realizando em prol da Umbanda. Aquelas que pretendem realizar alguma coisa sofrem primeiro com o descaso e reação ao termo federação; com a falta de disponibilidade de pessoas, totalmente consumidas pelas suas atividades laborais e a administração dos terreiros; e pela falta de recursos financeiros.

Assim, fragmentados em pequenos grupos, vivencia-se certa concorrência entre os terreiros, não se atua na via institucional, e inexiste uma estratégia política de centralização de ações de frente ampla. Com raríssimas exceções, em plena era da comunicação, ainda vive-se a tradição da transmissão oral dos conhecimentos, o que nos torna alvo fácil para o ataque de outras religiões mais modernizadas, bem estruturadas financeiramente, que organizadas nacionalmente, estabelecem relações muitas vezes equivocadas com o poder central do estado, cuja laicidade é letra morta na Constituição Federal, se fortalecendo cada vez mais.

A FUEP – Federação Umbandista do Estado do Paraná, a partir da atualização do Estatuto Social realizada em 2009, tem por finalidade primeira e maior, congregar e representar institucionalmente os Templos Religiosos Umbandistas (Associações, Cabanas, Centros, Tendas, Terreiros e demais denominações), seus dirigentes, médiuns e frequentadores na busca da legitimação e do fortalecimento da Umbanda.

Essa finalidade, bem como os princípios gerais, encontra-se no Capítulo II, Das Finalidades, Artigo 3°:

ARTIGO 3º – A FUEP tem por finalidades:

I – Congregar e representar os Templos Religiosos Umbandistas (Associações, Cabanas, Centros, Tendas, Terreiros e demais denominações), seus médiuns e frequentadores, associados nos termos do presente Estatuto, com os princípios Morais, Filosóficos, Doutrinários e Religiosos da Umbanda, promovendo a mais estreita harmonia e fraternidade, respeitando a diversidade das formas de culto, e os seguintes princípios gerais:

  • Não realizar em hipótese alguma o sacrifício ritualístico de animais.
  • Não cobrar pelas consultas, atendimentos e trabalhos, a Umbanda é caridade;
  • Respeitar o livre-arbítrio das criaturas, não realizando qualquer ação que implique em malefício ou prejuízo a alguém;
  • Preservar e respeitar a natureza do planeta;

Assim, o Estatuto Social, estabelece quem a FUEP representa e quais os princípios devem ser observados no sentido de estabelecer essa representação. Logicamente não se exclui a possibilidade de encampar políticas mais amplas, de forma pontual, em conjunto com os demais segmentos religiosos e movimentos sociais existentes no país.

Sabe-se que, atualmente, existem alguns grupos que ocupam papel destacado no cenário nacional, dos quais dois são mais conhecidos, liderados por dirigentes conhecidíssimos por todos os Umbandistas e demais seguidores de religiões afro-brasileiras, são eles: Pai Rivas Neto e Pai Rubens Saraceni. Ambos se postulam representantes dos mesmos objetivos e princípios e apresentam vários pontos positivos, notadamente com relação à visibilidade da Umbanda e dos demais cultos afro-brasileiros, que atinge proporções nunca vistas. Mas, mesmo com todos esses pontos positivos, não conseguem ou não tem interesse em realizar ações conjuntas, por motivos que efetivamente se desconhece, uma vez que não se participa desses grupos.

Dessa forma, emerge a necessidade de uma efetiva proposição de articulação nacional com o objetivo de buscar o reconhecimento e legitimação da Umbanda como religião.

É necessário também e urgente dar um norte para o futuro da Umbanda, evitando utilização do nome da Umbanda em atividades que buscam somente a utilização do seu nome por aproveitadores da Fé das pessoas, extorquindo valores para a realização de trabalhos que ferem os princípios morais, éticos, cármicos e o livre-arbítrio. É preciso dar uma basta aos mistificadores, que através de anúncios em postes, ou com verdadeiras arapucas, se utilizam do nome da Umbanda para ganhar dinheiro dos mais incautos.

Deve se ter a preocupação com a Umbanda que será deixada para as gerações futuras de umbandistas, se essa que é alvo de discriminação e preconceito, ou uma religião que as pessoas possam assumir sem o medo de represálias e perseguição.

Curitiba, capital do estado, foi a precursora em reconhecer e o estado do Paraná um dos poucos que reconhece oficialmente o dia 15 de novembro como o “Dia da Umbanda e dos Umbandistas”, data que já foi reconhecida nacionalmente pelo estado brasileiro. Ainda assim, as represálias e perseguição são sentidas também aqui, tendo em vista, talvez, o processo civilizatório do estado que apresenta a população negra com pequena proporção numérica e indicadores invejáveis de renda e qualidade de vida.

A Umbanda tem pouca aceitação pelas populações de alta renda, acredita-se que por estarem vinculadas as questões que remetem ainda ao tempo da escravidão, embora se note, à partir das comemorações do 1° Centenário em 2008, uma mobilização e um aumento da quantidade de templos, dos fiéis e dos frequentadores.

Tendo como certo que a melhor maneira de combater a discriminação e o preconceito é a conscientização e o esclarecimento, é cada vez mais necessária a integração dos Umbandistas entre si e com a sociedade, numa articulação que inicie localmente, avance para a regional e se estabeleça nacionalmente, de forma a unificar a mobilização dos Umbandistas, pelo reconhecimento efetivo e legitimação da sua religião.

É importante perceber que não se quer dividir, acredita-se na diversidade de ritos como a grande riqueza da Umbanda, ao contrário, entende-se necessário articular os Umbandistas para a definição da sua identidade religiosa, esclarecendo, tanto interna, para os Umbandistas, quanto externamente para o conjunto da sociedade, o que é a religião de Umbanda.

Dado esse pressuposto, tomou-se conhecimento da proposta do Movimento Político Umbandista, surgido inicialmente em São Paulo, que já se articula em vários estados do Brasil, que se propõe a organizar em 2014 o Congresso Nacional da Umbanda, onde seria discutida e aprovada a Carta Magna da Umbanda, documento que se propõe a estabelecer essa identidade à partir de pontos que já são comuns aos Templos Umbandistas em atividade, baseadas nas orientações emanadas do Médium Zélio Fernandino de Morais e do Caboclo das Sete Encruzilhadas, pontos que também são princípios norteadores da FUEP.

Constatada essa convergência, convocou-se o 3° Seminário de Cultura e Cidadania Umbandista do Estado do Paraná, realizado em 2013, com o objetivo de conhecer o Movimento Político Umbandista, a proposta do Congresso Nacional da Umbanda e a pauta da Carta Magna da Umbanda.

Desde aquele seminário, várias mudanças ocorreram, e chegamos em 2016 com uma Carta Magna estruturada, com linhas mestras que são comum a maioria hegemônica dos templos umbandistas e com uma importante proposta, de se construir um Conselho Nacional dos Umbandistas, com base nas orientações dadas na Carta Magna. Isso nos parece auspicioso, ter um órgão nacional que coordene as ações de frente ampla da Umbanda.

Dessa forma, a FUEP voltará a organizar fóruns sobre a Carta Magna da Umbanda, no sentido de aproximar os templos, seus dirigentes, médiuns e assistência dessa proposta que, grosso modo, pode reverter em muitos benefícios para o fortalecimento da Umbanda.

Que nos valha o Cristo Jesus, Oxalá da nossa Umbanda!

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