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O Pastor da Umbanda

Por José Álvares Pessoa*

“Bem-aventurados os que têm fé, porque esses verão a Deus Nosso Senhor”.

C7Encruzilhadas

A fé é uma das virtudes fundamentais de todas as religiões. Sublime por excelência, sem ela nada se poderá realizar no terreno espiritual e é por seu intermédio, dependendo da sua maior ou menor intensidade, que as almas se habilitam a levar avante a missão de que se incumbiram. A fé remove montanhas, cura as enfermidades do corpo e da alma, transforma os criminosos em cordeiros, faz o milagre – maravilhoso entre todos – do ladrão subir aos céus com Jesus Cristo.

Foi a fé que levou uma grande alma a realizar em nossa terra uma formidável obra de reforma religiosa, com a implantação, em nosso meio, da Lei de Umbanda. E esta realização é tanto maior quando todos nós sabemos que, no Brasil essencialmente católico, de há 40 anos passados, era quase um crime pensar-se em fazer modificações de ordem espiritual, que pudessem afetar, de leve sequer, o prestígio dos padres de Roma. A realização da tarefa, por isso mesmo espinhosíssima, que sobre os seus ombros tomou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, de organizar a Lei de Umbanda no Brasil, é um verdadeiro milagre de fé, que nos leva a um sentimento de grande amor e de profundo respeito por essa entidade, que se faz pequenina e que procura velar-se sob a capa de uma humildade perfeita.

É a ele – ao Pastor de Umbanda – que se deve a purificação dos trabalhos de magia nos Terreiros; é a ele que espiritualmente está entregue a direção de todas as Tendas de Umbanda no Brasil.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas é o verdadeiro Guia da Umbanda, o pastor das ovelhas de Iemanjá, aquele com quem todos os outros Guias lá no alto combinam, quando querem colaborar nos seus Terreiros. Foi ele quem assumiu perante Oxalá o compromisso de expurgar a Umbanda do rito essencialmente africanista que se vinha praticando desde as primeiras levas de escravos trazidos pelos portugueses.

Foi ele quem provocando uma guerra com os Espíritos das trevas, diretamente interessados com a implantação dos trabalhos de magia negra, não vacilou um só momento em seguir o programa traçado e arrebanhando as suas ovelhas – verdadeiro Pastor de Umbanda – vai continuando a sua obra de propagação com as constantes inaugurações de Tendas que, filiadas ou não à Tenda de Nossa Senhora da Piedade, são realmente suas, estão, queiram ou não queiram os seus organizadores, debaixo de sua orientação espiritual.

Que os que nos leem não se esqueçam desta verdade: o Caboclo das Sete Encruzilhadas é o legítimo senhor de Umbanda no Brasil; nenhuma Entidade, por grande que seja, intervém nos trabalhos da magia branca sem uma prévia combinação com ele.

Sei que muitos não concordarão com o nosso pensamento, pelo que peço perdão e licença para elucidá-lo. O meu intuito não é diminuir qualquer das entidades que baixam nos Terreiros de Umbanda e muito menos ferir qualquer suscetibilidade; eu sei, e todos sabem, que podem descer nos Terreiros entidades maiores que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, embora não se declarem como tal, mas essas entidades que vem prestar socorro a filhos que sofrem, vem e voltam sem a responsabilidade que cabe ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, que recebeu a missão de purificar os trabalhos da magia. Como prova, aí estão as suas Tendas, formando um todo homogêneo, organização que não tem similar e que vem resistindo a todas as campanhas que tem sofrido.

As minhas declarações não têm outro sentido a não ser que o Caboclo das Sete Encruzilhadas foi realmente o comissionado para esse fim; ele não vai inovar, veio apenas purificar o que já se fazia no país há algumas centenas de anos; ele não destruiu os rituais praticados, antes deu-lhe força e método e o propagou com sua organização maravilhosa. Verdadeiro Mestre da Magia Branca, responsável pela pureza do seu ritual, ele não poderia abandoná-la, porque o considera sagrado; ao contrário, ele nos ensinou a amá-lo e a respeitá-lo, porque ninguém melhor do que ele sabe que não há religião sem ritual.

O que ele deseja, entretanto, é que este ritual de Umbanda, humilde, mas cheio de luz, seja nivelado ao ritual elevado das grandes religiões e isento de toda inferioridade e da prática de coisas inúteis e perniciosas. O que deseja, sobretudo, é que este ritual seja praticado apenas por Guias autorizados, porque não são todos Espíritos que baixam nos Terreiros que se acham à altura de praticá-lo.

Essas minhas declarações são tanto mais insuspeitas quanto todos sabem o grande amor que eu e todos os que fazem parte da Casa de São Jerônimo temos ao Caboclo da Lua, que é por nós considerado uma entidade de grandes poderes e elevada espiritualidade. Todavia, e para isso chamo a atenção de todos, por muito grande que seja, ele não hesitou em trabalhar sob a Chefia do Caboclo das Sete Encruzilhadas, e foi ele quem organizou e lhe ofereceu a Tenda de São Jerônimo, que espero será um dos esteios de sua obra formidável.

Há alguns anos, previmos que Umbanda seria a futura religião do Brasil, numa visão feliz que posteriormente foi plasmada num estudo humilde e modestamente ofertado pelos filhos de São Jerônimo aos filhos de Santo Agostinho, que a nós são unidos pelo coração e pelos mesmos ideais.

Então, a Umbanda era perseguida não só pelos outros credos religiosos, mas ainda, pelas autoridades constituídas que a rebaixavam ao nível da magia negra.

Hoje, começamos a ver raiar a alvorada de Umbanda, porque são as próprias autoridades que nos convocam para uma confissão pública de Umbanda como credo religioso, permitindo que, com essa designação, as Tendas de Umbanda funcionem.

É a nossa vitória, ou antes, a grande vitória do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

O que nós todos lhe devemos é de valor inestimável; jamais poderemos pagar os benefícios espalhados a mancheias por ele e pelos Espíritos que acorreram ao seu chamado para ajudá-lo no cumprimento de sua missão. É uma felicidade para nós prestar ao Caboclo das Sete Encruzilhadas essa homenagem, rendendo-lhe um elevado preito de gratidão com o nosso reconhecimento público de que ele é o legitimo Pastor de Umbanda, o único diretamente responsável perante Oxalá por todas as Tendas já organizadas entre nós e por todas as que vierem a se organizar.

Este Espírito de eleição, cuja fé é um incentivo para os nossos Espíritos entibiados, cheios de irresoluções, fracos no cumprimento do dever, rebeldes quando não vemos que as coisas marcham sempre ao sabor dos nossos desejos; este Espírito de luz, cujo amor a Oxalá o levou a não ver os espinhos que o feriram ao longo da penosa jornada que teria de percorrer durante tão duros anos, bem merece ser enaltecido por todos os filhos de fé que se sentem felizes no ambiente humilde de Umbanda e que nem de leve suspeitam de seu verdadeiro valor, da sua singular grandiosidade.

Habituados a ouvir dizer: “O Caboclo das Sete Encruzilhadas baixa tal ou qual Terreiro”, os adeptos de Umbanda imaginam que ele é “mais um” entre os inúmeros que vem para a sua missão de caridade.

Já é tempo de corrigir-se o erro; ele não é “um entre muitos”, em Umbanda ele é o “primeiro entre todos”, porque foi comissionado para purificar os seus trabalhos; não há entidade que lhe não preste a sua homenagem, e todos, sem vaidade, sentem-se felizes em auxiliá-lo na sua obra de comissionado, pela qual ele vem lutando há mais de 40 anos.

As injustiças, as ingratidões, os escárnios, a zombaria, que lhe tem sido feitas durante todo este tempo, jamais contribuíram para um desfalecimento, por minutos que fosse de sua parte, em levá-la avante.

Assim como a tremenda campanha feita contra Nosso Senhor Jesus Cristo, por aqueles que, sem luz, desejavam o aniquilamento de sua obra e o desaparecimento de sua doutrina, só contribuiu para que ela com mais rapidez e segurança se propagasse pelo mundo inteiro, assim também toda a campanha de desmoralização e todo o sistema de intrigas urdido até hoje contra a obra formidável do Caboclo das Sete Encruzilhadas só tem contribuído, e cada vez mais contribuirá, para o seu engrandecimento e para que por todos os séculos se mantenha de pé.

Foi a fé que o ajudou a realizar esta obra, que um dia será gigantesca e se espalhará também pelos confins do mundo; é pela fé que ele pretende nos levar aos pés do doce Oxalá, de quem é um humilde devoto.
Verdadeiro Pastor de Umbanda, ele vela constantemente pelas suas ovelhas, a fim de que não se contaminem com o hábito pestilencial da magia negra, e sereno, como só os grandes podem ser, ele sorri, confiante na vitória de sua obra, porque sabe que a fé é o seu alicerce, a sustentará pelos séculos afora”.

*José Álvares Pessoa (Capitão Pessoa), dirigente da Tenda Espírita São Jerônimo – uma das 7 Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas – em reportagem no Jornal – “Semanário”, número 91 – ano III – página 15 – 1958

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