Retornar para História da Umbanda

Entrevista com Mãe Zilmeia de Moraes

Por Adriano e Andreia Camargo para o JUS – Jornal Umbanda Sagrada

zelia_e_zilmeia_de_moraes

Umbanda Amor e Caridade

Publicado por Anna Ponzetta no Grupo Eterno Aprendiz em 26/10/2015.

No sábado dia 11 de janeiro de 2003, Adriano Camargo e Andreia Camargo entrevistaram para o JUS – Jornal Umbanda Sagrada, a saudosa Mãe Zilmeia de Moraes, filha carnal de Zélio de Moraes e então dirigente da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Resgatamos esta matéria pelo valor da mesma e como contribuição histórica para nossa religião.
Adriano e Andreia foram recebidos por Zilmeia Moraes, sua filha e genro Lygia e Carlos, em São Paulo. Vieram da cidade de Niterói – RJ no final de semana para participar do evento promovido por Rubens Saraceni do Colégio de Umbanda “Pai Benedito de Aruanda”, onde Mãe Zilmeia foi paraninfa da cerimônia de formatura de novos Magos, e recebeu homenagem em memória de Pai Zélio, um dos Decanos da Umbanda, homenageado no novo livro de Rubens Saraceni e Mestre Xamã, chamado Os Decanos, editado pelo Grupo Madras.

Mãe Zilmeia nos recebeu com extrema gentileza e mais do que uma entrevista, participamos de uma verdadeira aula de Fé, Religiosidade, Perseverança e Alegria de Viver, ingredientes indispensáveis da temática abordada pelo JUS desde o início de sua atividade.

Posso dizer seguramente que esse encontro foi abençoado. Abençoado por nosso Pai Criador, coroado de irradiações positivas dos Mentores espirituais, e a presença viva de Pai Zélio na pessoa da Mãe Zilmeia é impressionante, algo indescritível, emocionante mesmo. Sua energia pessoal nos envolveu e tudo o que havíamos ensaiado para perguntar se transformou em um fluir de sabedoria de sua parte.

Poderíamos ter ficado horas, talvez dias, ouvindo-a, mas infelizmente não foi possível. Vamos dividir com vocês leitores do JUS essa experiência fascinante em algumas edições, e procuraremos ser o mais fieis possível às suas colocações. Abaixo seguem trechos de nosso bate-papo:

JUS: – Qual a idade da Senhora e quanto tempo de trabalho mediúnico?

Mãe Zilmeia: …tenho 88 anos, nasci em 1914, dia 21 de setembro… nasci quase na primavera… Lembro-me de ter começado a trabalhar no terreiro com 12 anos de idade, cambonando Pai Antônio que me chamava de “carneirinho” … (Pai Antônio era o Preto Velho que incorporava em Pai Zélio). …manifestação mediúnica… não me lembro… sei que são 76 anos de trabalho… dedicado à Umbanda. Muita coisa se perdeu… foi esquecida… passamos por muitas coisas, vi papai (Pai Zélio) fazer muita coisa, muita cura…, mas nada ficou registrado porque não havia gravador nem máquina fotográfica… nada dos recursos que temos hoje… o que sei está na memória… muita coisa está com
o Sr. Ronaldo Linares, e é a pessoa que mais conheceu Papai…

JUS: – Em suas palavras, o que é a Umbanda? Como poderíamos defini-la hoje?

Mãe Zilmeia: – … (pensando) … Amor e Caridade! … não tem outra definição… Amor e Caridade… não adianta ser bom médium se o que se faz se faz sem amor… e não há outro objetivo em nosso trabalho que não seja a caridade… ajudar ao próximo… levar o alívio ao mais necessitado…hoje eu vejo muita vaidade nos centros… muita gente querendo aparecer e esquecendo o principal… Amor e Caridade…

Continuando nosso bate-papo com Mãe Zilmeia, apresentamos a ela um dos nossos trabalhos junto com os jovens e pedimos que ela deixasse uma mensagem para os iniciantes na religião.

Segue a íntegra de sua mensagem que chegou por fax, no dia 05 de Fevereiro… como a própria Mãe Zilmeia definiu: “Não gosto de falar de improviso… gosto de pensar e escrever”…

Sua mensagem chega em hora muito pertinente, onde vemos realmente muitos jovens chegando à religião buscando preparo e conhecimento. Sabemos que não é só isso, sabemos que não basta participar de um curso de desenvolvimento e sair por aí dando passes. A mensagem a seguir não se fecha no universo dos jovens, muito pelo contrário, de todos os dispostos a trabalhar com seriedade pela religião.

Mensagem aos jovens

O mais importante é que tenham pureza em seus corações, consciência das dificuldades que os esperam num caminho que sempre é árduo, no qual muitas vezes sua Fé será testada, e sabedoria para se desviarem dos falsos mestres.
Aqueles que mistificam os ensinamentos da verdadeira Umbanda na busca de interesses escusos ou simplesmente por uma questão de vaidade. Aqueles que oferecem conhecimento e sabedoria como coisas fáceis de serem conquistadas, como se houvesse atalhos para o crescimento pessoal e espiritual.

Lembre-se que na Umbanda, assim como na vida, as coisas devem ser aprendidas num longo e muitas vezes penoso caminhar. Tudo tem seu tempo e sua hora. E QUE O SUCESSO RÁPIDO DE HOJE PODE SIGNIFICAR O FRACASSO DE AMANHÃ.

Para se construir algo que permaneça firme, principalmente se quisermos que continue a crescer, sempre necessitaremos de bases sólidas. Quanto mais fortes, melhor.

Devem ainda ter sempre em mente que a Umbanda foi, é e sempre será baseada na simplicidade, na humildade e na caridade. E que estes são os verdadeiros ensinamentos da Umbanda, dos quais vocês nunca deverão se afastar.
Usem seus corações como guias, façam suas orações pedindo aos seus mestres espirituais orientação nos momentos de dúvidas, sobre quais caminhos trilhar e como proceder diante das dificuldades, e mesmo das facilidades, que a vida nos dá. Uma vez que o caminho mais fácil nem sempre será aquele que nos fará mais felizes.

Tenham fé em Deus, em Oxalá, em nossos guias e protetores espirituais e sejam humildes e caridosos, pois esta é a própria razão de ser da Umbanda.Que Deus os abençoe.

JUS – Fale um pouco sobre Pai Zélio de Moraes…

Mãe Zilmeia – É uma pena que naquela época não havia esses aparelhos (referindo-se ao gravador e à máquina fotográfica), senão teríamos muito mais material… O maior conhecedor de Papai é sem dúvida nenhuma o Pai Ronaldo (Linares)… sempre foi e é fã absoluto de Papai e de seu trabalho, e tem muito material sobre Papai, sobre a Tenda… Muita coisa se perdeu no tempo e muita eu trago na memória; por exemplo: vimos muitas curas serem realizadas… verdadeiros milagres acontecendo na Tenda N. Sra. da Piedade… documentadas apenas na memória das pessoas. Papai era muito sério… até para incorporar o “Chefe”, forma carinhosa que Papai usava para tratar o Sr. Caboclo das 7 Encruzilhadas, até para isso ele colocava o paletó… isso mesmo, trabalhava sentadinho e de paletó. Pai Antônio, o preto-velho que também trabalhava com Papai, era um pouco mais sorridente e brincalhão… procurava deixar as pessoas mais à vontade.

JUS – E como está hoje a Tenda N. Sra. da Piedade?

Mãe Zilmeia – (pausa) está diferente… passou por muitas coisas… até hoje a Tenda não tem sede própria, sabiam? E tem o problema da violência no Rio de Janeiro… até já impuseram agenda para nossos trabalhos… os traficantes queriam determinar os nossos dias e horários. E nós, claro, ficamos com medo de colocar-nos e colocar a vida das pessoas em risco. Por isso hoje trabalhamos em Boca do Mato, no distrito de Cachoeiro de Macacu. É um pouco afastado de Niterói, mas é bem mais tranquilo…passamos também por problemas internos. Tivemos até briga na justiça pela posse do terreiro… isso mesmo, houve algumas pessoas que passaram pela Tenda, que se sentiram no direito de pleitear na Justiça o comando da casa. Mas a Justiça Divina não falha… nosso trabalho continua… no seu ritmo… sempre…

JUS – Como a Sra. está vendo hoje a evolução da Umbanda? O surgimento de novidades na religião, a própria Magia Divina, enfim, a abertura que a espiritualidade nos permitiu para conhecermos um pouco mais a nossa religião?

Mãe Zilmeia – Vejo tudo isso, mas rezo a cartilha de Papai… sempre! Somos tradicionais, praticamos a Umbanda de Papai Zélio… da mesma forma que ele trouxe, até hoje e assim damos continuidade no trabalho e as pessoas que passam pela Tenda são orientadas assim. Vejo muita mistura hoje… Umbanda é Umbanda… Candomblé é Candomblé… se você vai em dez tendas, vê dez trabalhos diferentes… nós seguimos a cartilha de Papai… sem tirar nem pôr…

Mãe Zilmeia de Moraes fala sobre o Caboclo das Sete Encruzilhadas (Guia Chefe da Tenda Espírita Nossa Sra. da Piedade).

O Caboclo das Sete Encruzilhadas pertence à falange de Oxóssi e, sob a irradiação da Virgem Maria (Mãe Oxum), desempenha uma missão ordenada por Jesus (Pai Oxalá). O seu ponto representa uma flecha atravessando um coração, de baixo para cima. A flecha significa direção, o coração sentimento, e o conjunto – orientação dos sentimentos para o alto, para Deus.

Estava o espírito do Caboclo no espaço, no ponto de intersecção de sete caminhos, chorando sem saber o rumo que tomaria, quando lhe apareceu, na sua inefável doçura, Jesus, e mostrando-lhe numa região da terra as tragédias da dor e os dramas da paixão humana, indicou-lhe o caminho a seguir, como missionário do consolo e da redenção. E em lembrança desse incomparável minuto de sua eternidade, e para se colocar ao nível dos trabalhadores mais humildes, o mensageiro do Cristo tirou o seu nome do número dos caminhos que o desorientavam e ficou sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

A primeira vez em que os videntes o vislumbraram, no início de sua missão, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se apresentou como um homem de meia idade, a pele bronzeada, vestindo uma túnica branca, atravessada por uma faixa, onde brilhava, em letras de luz, a palavra “Cáritas”. Depois, e por muito tempo, só se mostrava como caboclo. Tanga de plumas, e mais atributos dos pajés silvícolas.

Passou, mais tarde, a ser visível na alvura de sua túnica primitiva. Para dar desempenho a sua missão na terra, o Caboclo das Sete Encruzilhadas fundou sete Tendas e todas da Linha Branca de Umbanda. Centenas de Templos foram depois fundados sob a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, no estado do Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará e Rio Grande do Sul. Sempre que possível Zélio Fernandino de Moraes participava pessoalmente das instalações, quando o seu trabalho não o permitia, enviava médiuns capacitados para organizarem e dirigirem as novas Casas.

Zilmeia Moraes da Cunha, então Presidente da Tenda N. Sra. da Piedade, Mãe Zilmeia desencarnou dia 16 de setembro de 2010, anos antes já havia passado a condução da tenda a sua filha Lygia Cunha.