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Como Conheci Zélio de Morais

por Ronaldo Linhares

Pai Ronaldo Linares

Dentro da programação do 2º Seminário de Cultura e Cidadania Umbandista do Paraná, realizado em 2012, pela FUEP, pudemos assistir a palestra do Pai Ronaldo Linhares, presidente da FUGABC – Federação Umbandista do Grande ABC e do Santuário Nacional da Umbanda, esta situado na cidade de Santo André.

Ele bastante emocionado compartilhou com os presentes a maravilhosa experiência que teve ao conhecer e tornar-se amigo do Pai Zélio Fernandino de Morais, que aqui disponibilizamos.

O Pai Ronaldo sempre quis descobrir de onde surgiu a Umbanda e os seus rituais, e quando visualizou em uma reportagem de capa de uma Revista Espírita de Umbanda a manchete “Eu Criei a Umbanda – Zélio de Morais” a sua primeira reação foi dúvida, porém teve a oportunidade de conhecê-lo e tirar todas as suas dúvidas, vale apena conferir o texto.

Como Conheci Zélio de Morais

“Para mim, ele, sem dúvida nenhuma, é o Pai da Umbanda.”

por Ronaldo Linhares

Em julho de 1970(1), eu estava numa das minhas viagens ao Rio de Janeiro, com fragmentos de uma informação que havia colhido de uma conversa com o Sr. Demétrios Domingues, segundo o qual a mais antiga Tenda de Umbanda seria a de Zélio de Morais. Eu me encontrava em São João do Meriti-RJ, já de saída para São Paulo, quando decidi que procuraria essa pessoa e se é que ela realmente ainda existia. 

Após me informar de como chegar a Cachoeiras de Macacu, atravessei a ponte Rio-Niterói e, tomando a estrada para Friburgo, consegui chegar, depois de várias informações erradas. Caída a tarde naquela cidade.

Era dia de jogo do Brasil na copa do mundo, o que serviu para complicar meu trabalho. Em todo local que pedia informações, todos estavam com olhos grudados na televisão.  Meu carro, embora novo, tinha um mau contato no rádio e a minha companheira Norminha passou metade da viagem dando tapas embaixo do painel, para ouvir o jogo.  Várias vezes ela me disse que aquilo era uma loucura e que o melhor era voltarmos ao Rio de Janeiro, mas eu estava determinado a esclarecer o assunto de uma vez por todas.

Ao entrar na cidade, que é muito pequena, dirigi-me primeiro a um bar, pedindo as primeiras informações, pois contava encontrar uma pessoa muito popular na cidade.  Fiquei muito surpreso com o fato de que ninguém soube dar-me nenhuma informação, nem quanto à figura de Zélio nem quanto à sua Tenda.

Essa pessoa que eu procurava, se ainda estivesse viva, devia ser um ancião e, assim pensando, procurei uma farmácia, pois nessas pequenas comunidades os velhos quase sempre frequentam regularmente a farmácia. Nova decepção: ninguém conhecia Zélio e nem havia ouvido falar de sua Tenda. Cheguei a procurar a Igreja local e indaguei ao padre, apresentando as minhas credenciais de repórter.  Este também declarou nada saber a respeito de quem eu procurava (mais tarde vim a saber que a família Morais não só era conhecida do padre, como participava financeiramente das realizações sociais da igreja).

Já quase desistindo, parei numa padaria, em uma das travessas da cidade, e foi lá que encontrei o “louco”. Demos-lhe este nome porque durante a nossa conversa ele pareceu não ser um indivíduo equilibrado. Afirmou conhecer Zélio e disse-me que ele tinha um bar em Boca do Mato.  Contestei imediatamente, pois as informações que eu tinha diziam que Zélio morava em Cachoeiras. Depois de muitas explicações, fiquei sabendo que Boca do Mato era um bairro desse micromunicípio, com praticamente uma única rua que terminava na mata, daí o nome que lhe deram: Boca do Mato.  Um tanto temeroso ainda, convidei o “louco” para que nos levasse até o local.

Norminha estava apavorada com a minha atitude, achando que estávamos sendo conduzidos a uma emboscada.  O cair da tarde era frio e garoava muito, lembrando uma tarde de inverno paulistano.  A região serrana talvez propiciasse esse clima.  Ao voltarmos à estrada, o “louco” apontava para a propriedade mais bonita e dizia: “Eu vendi para o deputado, para o gerente do Banco do Brasil, etc”.  Se era fato ou não, o certo é que jamais ficaremos sabendo.

Finalmente uma curva na estrada, nenhuma casa aparente, ele nos pede para entrarmos à direita.  Só a menos de dez metros da entrada é que eu consegui enxergar a saída. O receio transformou-se em medo.  Apesar de tudo, fomos em frente: uma rua sinuosa, várias pontes, algumas casas esparsas, nenhuma casa de comércio aberta.  Paramos e ele disse: “É aqui!”.  A casa estava fechada.  Bati palmas várias vezes; numa casa vizinha uma janela se abriu e uma senhora de meia-idade, muito atenciosa, perguntou: “Vocês estão procurando quem?” Mostrei-lhe as credenciais e expliquei tudo.  “Sou repórter e preciso encontrar Zélio”.  Ela então me esclarece: “Seu Zélio está muito doente e não há ninguém em casa”.

Finalmente alguém confirmou que Sr. Zélio existia.  Perguntei onde o encontrava e ela disse: “Ele está na casa da filha, em Niterói”. Senti como se tivesse pisado num alçapão, pois havia passado por Niterói e levei duas horas para chegar até ali. Teria de fazer todo o caminho de volta.  Perguntei se ela teria o endereço. Ela, muito educada, respondeu: “Não sei exatamente onde eles moram, mas tenho o telefone da filha”.

Depois de assegurar-me de que realmente o apartamento ficava em Niterói, despedi-me. O “louco” estava eufórico, a informação era correta. Paramos em Cachoeiras de Macacu e eu o gratifiquei. Ele agradeceu e saiu correndo com o dinheiro em direção ao primeiro bar, “como um louco”.

Voltei para Niterói. Norminha dizia que o louco era eu por continuar naquela busca inútil, mas me acompanhava, apesar de tudo. Já não se falava mais em futebol, somente se encontraríamos ou não o Sr. Zélio.

Chegamos em Niterói por volta das 19 horas.  Assim que deixei estrada, cruzei algumas ruas e cheguei a uma farmácia. “Cariocamente”, estacionei o carro na calçada, desci, apresentei minhas credenciais e pedi para usar o telefone. Logo, em minha volta estava estabelecida a confusão.  “O senhor é repórter? Foi crime? Onde foi? Quem morreu?” Tentando ignorar as perguntas, consegui completar a ligação. Do outro lado da linha uma voz de menina atendeu-me. Eu disse apenas que era de São Paulo, que queria entrevistar o Sr. Zélio e que havia sido informado de que ele se encontrava naquele telefone.

A mocinha pediu-me que esperasse um instante. Eu a ouvi transmitindo as informações que lhe dera.  Outra voz no aparelho, desta vez a de uma senhora; explico os objetivos da minha visita (em nenhum momento declinei meu nome).

Ouço a pessoa com quem estou conversando dirigir-se a outra e explicar: “Papai, há um senhor de São Paulo ao telefone, que veio entrevistá-lo.  O senhor pode atendê-lo?” E, para minha surpresa, ouço lá no fundo uma voz cansada responder: “É Ronaldo, minha filha, que estou esperando há muito tempo. O homem que vai tornar o meu trabalho conhecido em todo o mundo”. Eu ouvia e não acreditava.  Eu não havia dito a ninguém o meu nome e, no entanto, ele sabia de tudo, como se estivesse informado. Pedi o endereço, trêmulo e emocionado. Não me saía da cabeça como ele sabia quem eu era. Agradeci ao farmacêutico e saí “pisando fundo”.

Na Avenida Almirante Ari Pereira, perguntei a um, a outro e, finalmente, estava defronte ao prédio. Um tanto receoso, encostei o veículo. Passam os andares e finalmente o elevador para. Tive a impressão de que meu coração havia parado também. Descemos, na nossa frente havia duas portas. Bati à porta da direita. Ela abriu-se. Era a mocinha gentil que me atendera da primeira vez:

“Sr. Ronaldo?”

“Perfeitamente!”

“Um momentinho”. A porta da sala é a outra e Dona Zilméia vai atendê-lo.

O espaço que separava uma porta da outra não ultrapassava três metros. Com quatro passos estava diante da outra, que já começava a abrir-se. Diante de mim, uma senhora sorriu muito educada e perguntou:

“O senhor Ronaldo?”

Confirmei e apresentei Norminha, minha esposa.

A sala era um “L” e, no canto direito, um velhinho, usando pijama com uma blusa de lã por cima, sorriu para mim. O apartamento era modesto; havia um enorme aquário numa das pernas do “L”.  Ao ver a frágil figura do velhinho, veio-me à cabeça que aquele deveria ser, no mínimo, irmão gêmeo de Chico Xavier, tal a sua semelhança física com o famoso médium kardecista.

Tomado de grande emoção, aproximei-me do senhor Zélio. Ele sorriu e disse, brincando: Pensei que você não chegaria a tempo.

Não sei por que, mas aproximei-me, ajoelhei-me diante daquela figura simpática e tomei-lhe a bênção. Ele tomou minhas mãos, fez-me sentar ao seu lado e repreendeu a Norminha, dizendo-lhe:

Por que você não queria vir para cá?

Quando consegui falar, disparei uma “rajada” de perguntas.  Eu estava totalmente abalado, o homem parecia saber tudo sobre mim e procurava acalmar-me, dizendo:

Sei perfeitamente o que você quer saber e não há motivo para que esteja tão nervoso.

Sua presença me acalmava. Dona Zilméia, depois de conversar conosco por 15 minutos, explicou que era seu dia de tocar os trabalhos e desculpou-se, dizendo que precisava sair. Pedi-lhe o endereço da Tenda e, depois de tudo anotado, ela retirou-se e fiquei na companhia do senhor Zélio.  Ele realmente tinha todas as respostas para minhas perguntas e, na maior parte do tempo, antecipava-se a elas. Coisa que até hoje não consigo compreender.  Eu estava diante de alguém como nunca havia visto antes. Finalmente eu encontrara o “homem”.

Quando Ronaldo Linhares efetuou os primeiros contatos com Zélio de Morais, indagou sobre a origem do ritual e das raízes umbandistas, ele fez os seguintes esclarecimentos:

Raízes do Ritual Umbandista

“O rito nasceu naturalmente, como conseqüência, principalmente, da presença do índio e pela presença do elemento negro, não tanto pela presença física do negro, mas sim pela presença do preto-velho incorporado, e, para ser mais preciso, no mesmo dia e pela primeira vez houve a incorporação de Pai Antonio, naquela que haveria de ser a primeira Tenda de Umbanda do Brasil.   A Tenda Nossa Senhora da Piedade (2).

Segundo relato de Zélio de Morais, o Caboclo das Sete Encruzilhadas havia avisado que subiria para dar passagem a outra entidade que desejava se manifestar.  Assim se manifestou, no corpo de Zélio de Morais, o espírito do velho ex-escravo, que parecia demonstrar sentir-se pouco à vontade frente a tanta gente e que, se recusando a permanecer na mesa em que se dera a incorporação, procurava passar despercebido, humilde, aparentando muita idade e o corpo curvado, o que dava ao jovem Zélio um aspecto estranho, quase irreal.  Essa entidade parecia tão pouco à vontade, que logo despertou profundo sentimento de compaixão e de solidariedade entre os presentes. Questionado então por que não se sentava à mesa, com os demais irmãos encarnados, respondeu:

“Negro num senta não, meu sinhô. Negro fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco i negro deve arrespeitá.”

Era a primeira manifestação desse espírito iluminado, mas a morte não retoca seu escolhido, mudando-o para o bem ou para o mal. Não havia afastado desse injustiçado o medo que ele tantas vezes havia sentido ante a prepotência do branco escravagista e, ante a insistência de seus interlocutores, disse:

“Num carece preocupá não, negro fica nu toco, que é lugá di negro.”

Procurava, assim, demonstrar que se contentava em ocupar um lugar mais singelo, para não melindrar nenhum dos presentes. Indagado sobre seu nome, disse que era “Tonho” e que era “PAI  ANTONIO”. Surgiu, assim, esta forma de chamar os pretos-velhos de “PAI”.

Ao responder como havia sido sua morte, disse que havia ido à mata apanhar lenha, sentiu alguma coisa estranha, sentou-se e nada mais se lembrava.

Sensibilizado com tanta humildade, alguém lhe perguntou respeitosamente: “Vovô, o senhor tem saudade de alguma coisa que deixou ficar aqui na terra?” Este respondeu:

“Minha cachimba, negro qué pito que deixou no toco.  Manda mureque buscá.”

Grande espanto tomou conta dos presentes. Era a primeira vez que algum espírito pedia alguma coisa de material, e a surpresa foi logo substituída pelo desejo de atender ao pedido do velhinho. Mas ninguém tinha um cachimbo para ceder-lhe. Na reunião seguinte, muitos pensaram no pedido e uma porção de cachimbos, dos mais diferentes tipos, apareceu nas mãos dos freqüentadores da casa, incluindo-se alguns médiuns que haviam sido afastados de centros espíritas kardecistas, justamente porque haviam permitido a incorporação de índios, pobres ou pretos como aquele e que, solidários, buscavam na nova casa, a Tenda Nossa Senhora da Piedade, a oportunidade que lhes fora negada em seus centros de origem.

A alegria do velhinho em poder pitar novamente o seu cachimbo logo seria repetida quando os outros médiuns já mencionados também passaram livremente a permitir a presença de seus caboclos, de seus pretos-velhos e demais entidades consideradas não doutas pelos kardecistas de então, pobres tolos preconceituosos que confundiam cultura com bondade.

Foi dessa maneira que foi introduzido na “mesa” espírita o primeiro rito. Outros lhe seguiram, como, por exemplo, quando houve a informação de que os índios tinham o hábito de fumar e que foram eles que primeiro descobriram as propriedades dessa planta que eles enrolavam num enorme charuto, que era usado coletivamente por todos os participantes de seus cultos religiosos, sendo desta forma uma espécie de planta sagrada.

Desde que haja moderação e cautela, negar o pito ao preto-velho seria hoje uma grande maldade. Entretanto, deve-se sempre ter em mente que o seu uso deve ater-se somente ao rito e evitar-se os abusos e as deturpações que testemunhamos constantemente, não raras vezes, tocando as raias do absurdo e do escândalo, para o desprestígio desta religião que nasceu sob o signo da paz e do amor.

Atualmente, sabe-se que o uso do fumo pelas entidades incorporadas tem o efeito purificador quando elas atendem alguma pessoa com problemas espirituais.  A fumaça age como um desagregador de maus fluidos, atingindo o perispírito dos espíritos obsessores.

Por extensão destes hábitos incorporados ao terreiro, passou-se a oferecer doces às crianças incorporadas e, às vezes, a promover festas infantis. Contudo, o que é usual nestes casos, e naturalmente influindo desta ou daquela forma nas demais maneiras de incorporação, sempre com o objetivo de tratar os incorporantes (espíritos) como velhos e queridos amigos a quem recebemos com grande satisfação.

Com a “liberdade” trazida pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, as pessoas afugentadas da elitizada mesa kardecista de então passaram a freqüentar a nova religião. Uma boa parcela dessas pessoas era de raça negra (no Rio de Janeiro). Isso fez com que a Umbanda passasse a contar com uma boa parte de médiuns de raça negra, que se sentiam muito à vontade pela ausência de preconceitos.

Estes médiuns começaram a enriquecer o ritual umbandista e hoje muitos rituais com o nome de Umbanda são praticados… muitos nem são Umbanda… são misturas desconexas de ritos… mas quando encontramos um verdadeiro terreiro ou tenda de umbanda… algo dentro de nós nos emociona… é como estivéssemos sentindo a presença de Cristo e de Nossa Senhora na humildade dos pretos velhos; na simplicidade dos índios caboclos em sua pureza mental e moral e no cheiro bom da arruda… alecrim… alfazema e guiné…

(1) Ronaldo Linares fez o seu primeiro contato com Zélio de Morais em 1970. Antes disso, em 1969, o pesquisador norte-americano David St Claire fez a mesma descoberta em sua estada no Brasil.

(2) A Tenda Nossa Senhora da Piedade é reconhecida hoje como a primeira Tenda de Umbanda e a data de 15 de novembro de 1908 é reconhecida como a data de fundação oficial da Umbanda.

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