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Sacrifício ritualístico

Por Casa de Oxumarê

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Invariavelmente nossa Religião é atacada em razão do nosso dogma concernente ao sacrifício animal. Recentemente, houve um político de São Paulo, que aventou a possibilidade da proibição do ritual, taxando-nos como primitivos criminosos, que maltratam os animais de forma leviana, algo totalmente absurdo e desprovido de razão.

Posto isso, esse tema é muito importante, contudo, pouco abordado pelos Terreiros de Candomblé, razão pela qual vamos hoje, discorrer um pouco sobre esse assunto.

Sempre que esses ataques emergem em meio às comunidades sensacionalistas, o Candomblé é figurado como uma seita que realiza “matanças de animais em série”, desenhando-nos de forma pejorativa e preconceituosa. Pior, ainda, quando discorrem que na nossa religião existe o sacrifício humano, UMA GRANDE MENTIRA, é salutar mencionar. Esses ataques inflamados, em sua maioria, surgem com o argumento da defesa dos animais, mas em verdade, escondem a incessante busca de “ditos” moralistas, em tentar aniquilar a maior herança que os africanos deixaram no Brasil, a sua Religião e costumes.

Primeiramente é importante frisar que o Candomblé não é uma seita, mas sim, uma Religião brasileira descendente de um religiosidade milenar, que carrega em sua herança ancestral a pujante força dos negros que, mesmo com tanto sofrimento decorrente da condição que lhes fora imposta (a escravidão), conseguiram perpetuar uma cultura, a dos Orixás. Além disso, o que precisa ser lembrado e reforçado é que, no Candomblé, os Animais são Sagrados e respeitados.

Muitos acreditam que o Candomblé maltrata os animais, sacrificando-os em elevada escala, sem critérios e com requinte de crueldade. Conforme mencionado, para nós do Candomblé, todos os Animais são sagrados e, neste contexto dentro de nossos templos a carne de origem animal só pode ser consumida desde que no momento do abate a vida no mesmo seja neste momento agradecida e sua imolação seja de forma que o sofrimento seja mínimo possível. O sangue, as penas e couro dos animais, que não pode ser consumido através de ritos são manipulados para diálogo com a natureza os nossos Orixás tudo é aproveitado conforme vamos relatar mais abaixo neste texto.

Entretanto, muito diferente do que a maioria pensa, os animais ofertadas aos nossos Deuses, não são maltratados e, sem dúvidas, sem os requintes de crueldade que acontecem em alta escala, por exemplo, nos grandes frigoríficos que comercializam a carne consumida pela grande maioria da população no País.

No Candomblé, para um animal ser ofertado, não é necessário somente o aceite do Orixá, mas também o aceite do próprio animal. Sobre isso, recordamos que, quando o animal se nega em ser ofertado, o Sacerdote respeita essa negativa, não realizando a oferta.

Àqueles que não pertencem ao nosso clero religioso, podem questionar: Mas como eles perguntam ao animal? Animal agora fala? Bom, eis uma das grandes diferenças do Candomblé em comparação as demais crenças. No Candomblé, nós acreditamos que podemos nos comunicar com os animais. Obviamente, em momento algum, esperamos que eles respondam por meio da verbalização, isso seria algo utópico, mas uma das etapas que antecedem a oferta é, justamente, saber se aquele animal aceita ser ofertado.

Não há como detalhar mais justamente por não podermos discorrer sobre algo que só é permitido aos iniciados. No entanto, essa etapa é de fundamental importância, sendo que, um dos objetivos da oferta, é que o animal leve aos Deuses, as mensagens das pessoas que estão lhe ofertando, bem como, agradecer aos Deuses, pelas graças alcançadas.

Dessa forma, cremos que, quando o animal não aceita ser ofertado, ele também não aceitará mandar a mensagem, tornando a oferta inválida. Quando isso ocorre, o sacrifício não é realizado.

Ademais, é importante mencionar igualmente que, a oferta de animais não é realizada na escala que os ditos moralistas afirmam. Nos Terreiros de Candomblé, a grande maioria das oferendas condiz em grãos, folhas, frutos e diversos elementos do reino vegetal e mineral. Podemos afirmar que, o que mais ofertamos aos nossos Deuses é o Obì, fruto africano indispensável em nossas cerimônias. No entanto, as pessoas se apegam as falsas acusações inerentes ao sacrifício animal, para tentar alvejar uma cultura rica e tradicional, podendo assim expor seu preconceito sem que sejam taxados como intolerantes religiosos.

Algo que merece destaque especial é que, a carne oriunda desses animais é utilizada em regozijo pelo nosso povo, alimentando-nos, revitalizando-nos e tornando-nos mais próximos dos nossos Deuses, razão pela qual esses animais são ainda mais sagrados, sendo que, por meio deles, nós também sobrevivemos.

Não podemos olvidar que o sacrifício ocorre, mas não podemos em hipótese alguma, deixar que deturpem os nossos dogmas e costumes. Em muitas culturas religiosas existe o sacrifício animal, sendo que Candomblé é somente uma delas e que talvez, o realize em menor proporção.

Mas por que, afinal, somente o Candomblé é alvejado no que tange essa questão? Aqui, há dois elementos que desencadeiam esse processo. O primeiro é o preconceito e intolerância que sempre existiram acerca do negro, dos seus costumes e, mormente da sua religião. Basta recordamos da Capoeira, que outrora era dita como contravenção de arruaceiros e tantos outros costumes trazidos da África para o Brasil. A segunda é de certa forma suscitada por alguns adeptos que, muitas vezes sem ter consciência da dimensão de suas ações e muitas vezes por inocência, publicam de forma recorrente nas redes sociais, fotos e vídeos com rituais de Orò.

Muitos podem acreditar que, a recomendação de não se publicar fotos e vídeos de Orós, sugere que os “ditos” moralistas estejam corretos. Em verdade não! Mas, essas fotos e vídeos são, sobretudo, algo que jamais deveriam ter sido originadas, não pelo evento e pelas críticas que elas despertam na sociedade à margem de fora do Candomblé, mas sim, pelo fato desses rituais estarem enquadrados naquilo que chamamos de “Awo”, ou seja, o mistério que só pode ser revelado aos iniciados.

Dessa forma, caso consigamos mitigar ao menos um dos processos que desencadeiam esse tipo de investida contra a nossa Religião, já estaríamos conquistando algo muito benéfico para a manutenção da nossa cultura. Dessa forma, torna-se necessária uma reflexão sobre o tema, que deve partir das lideranças, orientando os seus seguidores em como devemos nos salvaguardar.

Aproveitamos para agradecer as centenas de compartilhamentos e comentários que as postagens da nossa casa vêm recebendo. Isso motiva o Terreiro de Òsùmàrè, a continuar nesse trabalho de esclarecimento e fomento da Cultura que os Negros Africanos nos deixaram como herança.

Rogamos ao nosso Pai, Òsùmàrè Aràká, para que abençoe a vida de cada um, cobrindo todos com paz, harmonia, felicidade e fartura em suas mesas.