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Mediunidade

por Rubens Saraceni (*)

A mediunidade é a qualidade de toda pessoa que é médium. As faculdades mediúnicas têm muitas formas de aflorarem e costumam processar-se em diferentes níveis conscienciais, e até níveis sub ou hiperconscientes.

Alan Kardec pesquisou a fundo os mais diversos tipos de faculdades mediúnicas e ordenou as manifestações, que até então eram tidas como tabus ou como possessões malignas. Muitos que mantêm esse juízo até hoje, ainda que a maioria admita que os espíritos podem se comunicar conosco se dispuserem de veículos apropriados (médiuns desenvolvidos).

Saibam que na antiguidade as pessoas portadoras de mediunidade eram tidas na conta de
fenômenos ou de pessoas especiais.

Mas, o Cristianismo, que no início cultivava as faculdades mediúnicas de inspiração e incorporação, quando pessoas ficavam possuídas e falavam outras línguas ou transmitiam mensagens, codificava-as como manifestações do Espírito Santo de Deus, tal como antes o Judaísmo já havia feito para explicar os seus profetas.

Mas a mediunidade é tão velha quanto o próprio ser humano, e na Grécia antiga existiam templos dedicados aos deuses, onde médiuns femininos (as pitonisas) faziam a fama deles quando acertavam nos oráculos emitidos, como provocavam sua ruína caso falhassem continuamente.

Portanto, temos na mediunidade um recurso para nos comunicarmos com o outro lado da vida, e para recebermos mensagens que muito nos auxiliam. Os espíritos, sempre que podem, recorrem a médiuns para nos alertar e nos afastar de caminhos sombrios. Logo, temos na mediunidade um elo de comunicação com todo um plano da vida que é invisível à maioria e só uns poucos clarividentes podem vê-lo e descrevê-lo.

Saibam que a mediunidade de inspiração e de incorporação são as mais comuns, e suas práticas são tão antigas que a origem delas se perde no tempo.

O culto aos Orixás é anterior ao Cristianismo, e o fundamento principal do culto de nação é a incorporação de seres naturais que nunca encarnaram. As antiquíssimas tribos africanas tinham seus sacerdotes que realizavam rituais onde, com o auxílio de instrumentos de percussão (tambores, adejás etc.) induziam seus membros ao transe mediúnico, quando então eram possuídos pelos seus Orixás individuais.

O mesmo faziam há milênios os índios americanos, cujos pajés se comunicavam com os espíritos de seus antepassados e os consultavam em caso de calamidades naturais ou guerras tribais, tal como faziam os gregos, quando queriam resposta às calamidades ou às guerras que iriam travar com seus inimigos.

Logo, só com isso, cai por terra o mote mais usado pelos não-médiuns, que acusam os médiuns de pessoas possuídas pelos “demônios”. “Daimon”, em grego, significa unicamente espírito e, se consultavam os “daimons” através das pitonisas, só estavam consultando espíritos regidos pelas suas divindades, pois os oráculos eram emitidos dentro de seus templos. Portanto, nada tem a ver com a conotação pejorativa que a igreja Católica deu a esta palavra grega que significa espírito, e que nos dias de hoje é reforçada e distorcida pelos “evangélicos”, muitos dos quais são médiuns inconscientes, ou semiconscientes, pois manifestam espíritos que, entre outras coisas, falam outras línguas.

Alan Kardec descreveu muito bem esta faculdade mediúnica, classificando-a como só mais um tipo de mediunidade, comum a muitos médiuns, mas não a todos. Portanto, não há nada de novo nesse campo desde que esse mundo é mundo.
Certo? Afinal, muito antes do advento do Cristianismo a mediunidade era um fenômeno muito conhecido e era uma faculdade espiritual à qual recorriam muitas religiões durante seus rituais. Ainda que em muitas delas, as incorporações acontecessem só durante seus rituais, onde as pessoas antes eram levadas a um estado de semiconsciência através da ingestão de certas bebidas alucinógenas ou entorpecentes, predispondo-as à entrega do corpo físico aos espíritos, que os tomavam e realizavam toda uma dança ritual, da qual participava toda a tribo.

Bem próximo de nós temos o exemplo dos índios brasileiros, que têm suas festas religiosas, onde, nos dias que a antecedem, toda a tribo começa a preparar-se. São ocasiões onde entram em êxtase e se colocam em comunhão com os seus ancestrais.

Eles não têm um conhecimento da mediunidade, mas ficam possuídos quando realizam suas danças rituais. E tanto isto é comum entre eles que os espíritos de índios foram alavancadores da Umbanda, já que incorporavam nos médiuns, mesmo estes não tendo conhecimento do que estava acontecendo, porque desconheciam esse fenômeno. Então, apavorados, comam até os velhos benzedores negros ou até os nascentes centros espíritas.

Hoje, poucos se dão ao trabalho de refletir sobre a forma ordenada corno os espíritos se
manifestam nos centros de Umbanda, Espiritismo, e até mesmo de Candomblé, onde até a possessão é toda ordenada e as incorporações acontecem de forma consciente e sempre comandada pelo babalorixá ou ialorixá dirigente, que ora ordena que os médiuns incorporem uma linhagem de Orixás, para a seguir chamar outra linhagem.

Quem quiser crer que no passado tudo era assim, bem ordenado, que creia. Mas, que não era, isso não era. Sim no passado, tanto na África, quanto aqui no Brasil, quando iniciavam os “toques”, só uma divindade era chamada a se manifestar, e todo o culto girava em torno dela, a divindade da tribo.

Se observarem bem, perceberão que aconteceu urna transição, durante a qual as antigas e incontroladas possessões espirituais foram sendo ordenadas e colocadas sob controle dos dirigentes dos trabalhos espirituais ou dos cultos de nação, pois hoje em dia os Orixás dos médiuns não só obedecem ao comando dos encarnados durante as manifestações, como só se manifestam dentro dos locais destinados ao culto a eles. E o mesmo vem acontecendo com os espíritos, que têm evitado as possessões desordenadas em seus médiuns ainda inconscientes, preferindo que eles participem de reuniões de estudo sobre os fenômenos espirituais e desenvolvam de forma consciente a mediunidade que possuem.

Ainda que tenha passado despercebido a todos, o fato é que, até as manifestações estão sendo aperfeiçoadas e adaptadas ao atual grau de evolução do plano material, racionalista e científico. O grau anterior era emotivo e religioso.

Portanto, mediunidade, nos dias atuais, já faz parte do dia-a-dia das pessoas e não é mais o tabu de alguns séculos atrás, quando médiuns eram torturados, presos ou queimados nas fogueiras da Inquisição, que os julgava bruxos, feiticeiros ou seres possuídos pelo “demônio”.

Hoje, mediunidade é só uma forma de acelerar a evolução espiritual, tanto dos médiuns quanto dos espíritos.

(*) Rubens Saraceni foi um médium e escritor brasileiro, com inúmeras obras publicadas. Fundador do Colégio Tradição de Magia Divina, colégio este que se destina a dar amparo aos magos iniciados nas magias abertas ao plano material e espiritual, desencarnou em 09/03/2015.

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